O Brasil inteiro se comoveu com o caso do cachorro Orelha. Uma história que já era dolorosa por si só ganhou ainda mais repercussão quando chegou à TV aberta, em horário nobre, no Fantástico. O problema? A forma como o caso foi conduzido na reportagem deixou muita gente com a sensação de que o foco estava… no lado errado da coleira.
Durante mais de 12 minutos de matéria, o tom adotado não foi apenas informativo — soou quase como uma tentativa de inverter papéis. Em vez de manter a atenção nas possíveis falhas humanas, na responsabilidade dos tutores e nas circunstâncias que levaram ao sofrimento do animal, a narrativa pareceu girar em torno do comportamento do próprio cachorro, como se ele fosse parte central do problema.
Quando a narrativa pesa para o lado mais fraco
É sempre delicado falar sobre casos envolvendo animais, principalmente quando há emoção, versões conflitantes e investigação em andamento. Mas existe uma linha tênue entre explicar os fatos e sugerir, ainda que indiretamente, que o animal “contribuiu” para o que aconteceu.
Cães não dão entrevistas. Não apresentam defesa. Não contam sua versão. Eles reagem ao ambiente, ao tratamento que recebem, ao medo, à dor e ao instinto de sobrevivência. Quando uma grande emissora dedica minutos preciosos enfatizando reações do animal sem o mesmo peso crítico sobre a conduta humana, a mensagem que passa é, no mínimo, desconfortável.
E o público percebeu.
A força da opinião pública
Nas redes sociais, a reação foi quase imediata. Muita gente sentiu que a reportagem tentou suavizar responsabilidades humanas enquanto destacava atitudes do cachorro como se estivessem no mesmo nível de decisão consciente. Para quem acompanhava o caso já com o coração apertado, isso soou como uma tentativa de “equilibrar” algo que, moralmente, não é equilibrado.
Animais dependem 100% das pessoas. Eles não escolhem onde vivem, com quem vivem ou como são tratados. Por isso, qualquer situação de negligência, violência ou abandono sempre parte de uma falha humana antes de qualquer outra coisa.
Jornalismo ou construção de narrativa?
O jornalismo tem o dever de ouvir todos os lados, mas também tem a responsabilidade de não criar falsas equivalências. Colocar o comportamento de um animal no mesmo nível da responsabilidade de pessoas pode até parecer imparcialidade, mas muitas vezes é apenas uma distorção da realidade.
O caso do Orelha não é só sobre um cachorro. É sobre como a sociedade enxerga os animais, sobre responsabilidade, cuidado e empatia. E também é sobre como a mídia molda a percepção pública.
Quando a maior revista eletrônica do país parece gastar mais tempo explicando o “lado” de quem tinha poder de escolha do que o sofrimento de quem não tinha nenhuma, o público sente. E reage.
No fim, fica a pergunta
Se um animal depende totalmente de humanos para viver com segurança, amor e dignidade… faz sentido que, em algum momento da narrativa, ele pareça o vilão?
O caso do Orelha tocou o Brasil porque mexe com algo muito profundo: a noção de proteção aos mais vulneráveis. E talvez a maior lição de tudo isso não seja apenas sobre o que aconteceu, mas sobre como escolhemos contar essas histórias.
Porque a forma como contamos um caso diz muito sobre de que lado, de verdade, estamos. 🐶